Direita chilena propõe museu para narrar versão sobre era Allende
O Partido Nacional Libertário apresentou projeto para criar memorial focado nas crises econômicas e na violência política entre os anos de 1970 e 1973

Sete deputados do Partido Nacional Libertário, uma sigla de extrema-direita no Chile, protocolaram um projeto para a criação do chamado Museu da Verdade. A proposta, enviada ao atual presidente chileno, o conservador José Antonio Kast, busca oferecer uma narrativa alternativa sobre o período em que o país foi governado pelo líder socialista Salvador Allende.
O objetivo central é destacar o que os parlamentares classificam como vítimas do governo da Unidade Popular, a coalizão que comandava o Chile antes do golpe militar de 1973.
Novos olhares históricos
O espaço seria oficialmente batizado como Museu da Verdade: O Atropelo, a Fome e a Humilhação. Os idealizadores da iniciativa, liderados por figuras como Johannes Kaiser, fundador do partido e influente voz da direita local, argumentam que a memória oficial atual é incompleta.
Eles sustentam que é necessário documentar o desabastecimento, a hiperinflação e a violência política que marcaram os anos pré-ditadura, alegando que as novas gerações recebem uma visão romantizada desse passado.
Reações e críticas
Conforme o texto do projeto, o museu utilizaria fotografias, registros econômicos e depoimentos para expor o caos institucional daquela época. No entanto, a medida enfrenta forte resistência. O deputado Alejandro Bernales, integrante do Partido Liberal, criticou a proposta por considerá-la um desvio de prioridades educativas.
Além disso, de acordo com análises do jornal The Guardian, críticos apontam que o projeto omite deliberadamente o papel da CIA, o serviço de inteligência dos Estados Unidos, no fomento à crise econômica para desestabilizar Allende.
Disputa pela memória
A proposta surge como um contraponto direto ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, instituição que já existe em Santiago para recordar as atrocidades cometidas durante a ditadura de Augusto Pinochet.
Para defensores de direitos humanos, a nova iniciativa pode servir para relativizar os crimes do regime militar, que deixou mais de 3 mil mortos e desaparecidos. O projeto agora aguarda votação na Câmara dos Deputados para definir se o pedido será formalizado ao governo federal.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli